quarta-feira, 14 de abril de 2021

Posted by Demétrio Melo |

 

LUTO LÍQUIDO

 

A sociedade contemporânea há muito não nos dá mais tempo para parar e refletir de forma profunda sobre absolutamente nada.

Parar e refletir é um luxo daqueles que conseguem perceber que de alguma forma, ainda se conservam vivos e talvez humanos.

Temos que fazer tudo rápido e sem tempo de saber o porquê, como comer, trabalhar, andar, transar, se relacionar...

Nem mesmo podemos enterrar nosso mortos com o devido pesar que o momento mereça.

Não há muito tempo para o luto, pois não se pode perder um tempo precioso com quem já não pode vender e muito menos comprar.

Já não somos pessoas, somos consumidores e ninguém compra televisores, roupas e sanduíches, depressivos e pesarosos por quem se foi.

O luto é hoje privilégio e desumanizar as pessoas é instrumento necessário para que não soframos tempo demais a ponto de não usar o cartão de crédito.

Quando os sentimentos são normalizados, não há porquê estranhar e sofrer por algo que a sociedade já banalizou.

Desta forma, o sofrimento se torna mais breve, o choro renitente e as expressões de tristeza são aos poucos substituídas pelos sorrisos sem graça e indefinidos.

Então, nos acostumamos ao fato de que, não temos mais o momento adequado da reflexão sobre a nossa existência e aos que caem nessa armadilha, sobra apenas a espera de também serem esquecidos.

Demétrio Melo   

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