LUTO LÍQUIDO
A sociedade contemporânea há muito não nos dá mais tempo
para parar e refletir de forma profunda sobre absolutamente nada.
Temos que fazer tudo rápido e sem tempo de saber o porquê,
como comer, trabalhar, andar, transar, se relacionar...
Nem mesmo podemos enterrar nosso mortos com o devido pesar
que o momento mereça.
Não há muito tempo para o luto, pois não se pode perder um
tempo precioso com quem já não pode vender e muito menos comprar.
Já não somos pessoas, somos consumidores e ninguém compra
televisores, roupas e sanduíches, depressivos e pesarosos por quem se foi.
O luto é hoje privilégio e desumanizar as pessoas é
instrumento necessário para que não soframos tempo demais a ponto de não usar o
cartão de crédito.
Quando os sentimentos são normalizados, não há porquê estranhar
e sofrer por algo que a sociedade já banalizou.
Desta forma, o sofrimento se torna mais breve, o choro
renitente e as expressões de tristeza são aos poucos substituídas pelos
sorrisos sem graça e indefinidos.
Então, nos acostumamos ao fato de que, não temos mais o
momento adequado da reflexão sobre a nossa existência e aos que caem nessa armadilha,
sobra apenas a espera de também serem esquecidos.
Demétrio Melo

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